A matéria orgânica não alimenta as plantas, mas alimenta o solo: entenda a diferença.

Atualizado: 7 de ago. de 2021

Se a matéria orgânica não é alimento para a planta, então como as plantas se alimentam?


A NUTRIÇÃO DAS PLANTAS


Sei que você você já ouviu por aí que "um solo rico em matéria orgânica é bom para as plantas porque libera nutrientes para ela”. E essa frase não está totalmente errada, mas acontece que os nutrientes não “se liberam” por livre e espontânea vontade no solo.


As plantas se nutrem através da água que contém sais minerais (em sua forma solúvel - combinados com outras moléculas), esses sais também estão presente nos solos e são materiais inorgânicos, ou seja, são compostos que não tem a presença do Carbono em sua cadeia e, portanto, não são originados de vegetais ou animais, mas são absorvidos por eles.


Dito isto, podemos concluir que não é possível que uma planta se alimente de outra planta, porque ela é feita de compostos orgânicos e as plantas se alimentam de nutrientes na forma inorgânica (sais minerais e compostos inorgânicos).


Então como a presença de material orgânico no solo pode fornecer nutrientes para as plantas?



A COMUNIDADE BIÓTICA


A resposta dessa pergunta está na presença da biodiversidade do solo, também conhecida como Fauna Edáfica ou Biocenose do Solo. São os ínfimos seres (micro, meso e macroscópicos - bactérias, fungos, platelmintos, minhocas, besouros e insetos em geral) que habitam o solos e fazem a decomposição da matéria orgânica em matéria inorgânica para que a planta consiga absorver os nutrientes que precisa. Sem esses seres as plantas só conseguiriam se alimentar de sais solúveis do solo (presentes nele através da erosão de rochas minerais durante milhaaaares de anos) e esses minerais seriam insuficientes para as plantas porque eles só se movimentam e retornam ao solo através da decomposição que seria muito mais longa sem esses seres.


Antes de servir de alimento para a planta, a matéria orgânica precisa passar pela degradação dessa comunidade. Sem esse processo, conhecido como mineralização, a planta não consegue absorver os nutrientes porque eles estão na forma orgânica e, como já vimos, a planta não é capaz de "comer" material orgânico de outras plantas ou animais.

Composição do solo


A verdade é que no solo existem tanto elementos orgânicos, quanto inorgânicos que podem passar por reações químicas e liberar nutrientes de forma solúvel para a planta, mas se não houvesse a fauna edáfica, esses nutrientes disponíveis iriam acabar e não seriam repostos porque as plantas transformam os nutrientes inorgânicos disponíveis em compostos orgânicos vegetais - os quais elas não conseguem digerir depois, tornando-os indisponíveis.

Em resumo, a biocenose do solo é capaz de “mobilizar” nutrientes que estão na forma orgânica e transformá-los para a forma inorgânica. Muitos desses pequenos seres não tem mecanismos internos para digerir seus alimentos, eles produzem enzimas, que são substâncias capazes de “digerir” materiais específicos para que eles possam se alimentar.


Esse vídeo mostra a degradação da matéria orgânica com, e sem a presença da Fauna Edáfica. Perceba a importância desses organismos no solo!


Curiosidade: As enzimas produzidas por fungos e bactérias estão presentes numa grande quantidade de produtos que ingerimos, como produtos alcoólicos, fermentados e até vitaminas (como é o caso da vitamina B12). As enzimas são proteínas que atuam como catalisadores. Quando uma substância precisa ser transformada em outra, a natureza usa enzimas para acelerar o processo. Em nosso estômago, por exemplo, as enzimas produzidas quebram o alimento em pequenas partículas para serem convertidas em energia.



ENTENDENDO A PARCERIA


Esses seres poderiam fazer todo esse trabalho de produção de enzima e quebra química dos elementos porque são muito gentis, mas sabemos que na natureza as coisas não funcionam dessa maneira, não é? Na verdade, a Fauna Edáfica ajuda as plantas porque espera um pagamento: até 60% da seiva elaborada que as plantas produzem - rica em açúcares - , que esses seres usam para se manterem vivos. A planta produz a seiva elaborada para o funcionamento do seu metabolismo e também para alimentar a vida invisível (ou semi-visível) do solo, que disponibiliza os nutrientes para elas.

Mas a linha da simbiose entre os organismos e plantas é tênue, de aliado à parasita o caminho é curto: caso os microorganismos disponibilizem os nutrientes e as plantas não consigam produzir a seiva elaborada como pagamento, esses seres começam a atacar as raízes e a própria planta para poderem se alimentar - afinal, eles se alimentam de plantas em decomposição, que não conseguem manter seu próprio metabolismo e fazer o pagamento com seiva para eles. Esse estado é o de parasitas: tira-se mais do que a planta consegue fornecer, com seu metabolismo mais desequilibrado e lento.

Normalmente (num ambiente ecologicamente equilibrado), "a micro e mesovida do solo são a polícia sanitária da natureza, removendo e reciclando o que não presta mais para uma vida ativa e sadia. E, se nossas culturas são atacadas, alguma coisa deve estar fundamentalmente errada, porque não é em vão que os microrganismos consideram quando plantas estão "inaptas" para a vida. Toda vida múltipla e diversificada funciona a partir da matéria orgânica". - Ana Maria Primavesi.


É uma relação simbiótica arriscada e quando os elementos estão equilibrados, uma planta saudável consegue ser muito produtiva e estar nutrida, enquanto os seres presentes no solo fazem a ciclagem de nutrientes e proteção das raízes pelo interesse pelo pagamento de seiva.