A matéria orgânica não alimenta as plantas, mas alimenta o solo: entenda a diferença.

Se a matéria orgânica não é alimento para a planta, então como as plantas se alimentam?


A NUTRIÇÃO DAS PLANTAS


Sei que você você já ouviu por aí que um “solo rico em matéria orgânica é bom para as plantas porque libera nutrientes para ela”. E essa frase não está totalmente errada! Mas acontece que os nutrientes não “se liberam” por livre e espontânea vontade no solo.


As plantas se nutrem através da água que contém sais minerais (em sua forma solúvel) presente nos solos. Sais minerais são materiais inorgânicos, ou seja, são compostos que não tem a presença do Carbono em sua cadeia e, portanto, não são originados de vegetais ou animais.


Dito isto, podemos concluir que não é possível que uma planta se alimente de outra planta, porque está é feita de compostos orgânicos e a planta se alimenta de nutrientes na forma inorgânica. Então como a presença de material orgânico no solo pode fornecer nutrientes para as plantas?



A COMUNIDADE BIÓTICA


A resposta dessa pergunta está na presença da biodiversidade do solo, também conhecida como Fauna Edáfica ou Biocenose do Solo. São os pequenos seres (micro, meso e macroscópicos) que habitam o solos e fazem a decomposição da matéria orgânica em matéria inorgânica para que a planta consiga absorver os nutrientes que precisa. Sem esses seres as plantas só conseguiriam se alimentar de sais solúveis do solo (presente nele através da erosão de rochas minerais durante milhaaaares de anos) e esses minerais poderiam ser insuficientes para as plantas.


Antes de servir de alimento para a planta, a matéria orgânica precisa passar pela degradação desses seres. Sem esse processo, conhecido como mineralização, a planta não consegue absorver os nutrientes porque eles estão na forma orgânica e, como já vimos, a planta não é capaz de "comer" pedaços de outras plantas.

Composição do solo


A verdade é que no solo existem tanto elementos orgânicos, quanto inorgânicos que podem passar por reações químicas e liberar nutrientes de forma solúvel para a planta, mas se não houvesse a fauna edáfica, esses nutrientes disponíveis iriam acabar e não seriam repostos porque as plantas transformam os nutrientes inorgânicos em compostos orgânicos vegetais - os quais elas não conseguem digerir depois.

A biocenose do solo é capaz de “mobilizar” nutrientes que estão na forma orgânica e transformá-los para a forma inorgânica. Muitos desses pequenos seres não tem mecanismos internos para digerir seus alimentos, eles produzem enzimas, que são substâncias capazes de “digerir” materiais específicos para que eles possam se alimentar.


Esse vídeo mostra a degradação da matéria orgânica com, e sem a presença da Fauna Edáfica. Perceba a importância desses organismos no solo!


Curiosidade: As enzimas produzidas por fungos e bactérias estão presentes numa grande quantidade de produtos que ingerimos como produtos alcoólicos, fermentados e até vitaminas (como é o caso da vitamina B12). As enzimas são proteínas que atuam como catalisadores. Quando uma substância precisa ser transformada em outra, a natureza usa enzimas para acelerar o processo. Em nosso estômago, por exemplo, as enzimas produzidas quebram o alimento em pequenas partículas para serem convertidas em energia.



ENTENDENDO A PARCERIA


Esses seres poderiam fazer todo esse trabalho de produção de enzima e quebra química dos elementos porque são muito gentis, mas sabemos que na natureza as coisas não funcionam dessa maneira, não é? Na verdade, a Fauna Edáfica ajuda as plantas porque espera um pagamento: até 60% da seiva elaborada que as plantas produzem, rica em açúcares que esses seres usam para se manterem vivos. A planta produz a seiva elaborada para o funcionamento do seu metabolismo e também para alimentar a vida invisível do solo, que disponibiliza os nutrientes para elas.

Mas a linha da simbiose entre organismos e plantas é tênue, de aliado à parasita o caminho é curto: caso os microorganismos disponibilizem os nutrientes e as plantas não consigam produzir a seiva elaborada como pagamento, esses seres começam a atacar as raízes e a própria planta para poderem se alimentar - afinal, eles se alimentam de plantas em decomposição, que não conseguem manter seu próprio metabolismo e fazer o pagamento com seiva para eles. Esse estado é o de parasitas: tira-se mais do que a planta consegue fornecer, com seu metabolismo mais desequilibrado e lento.

Normalmente (num ambiente ecologicamente equilibrado), "a micro e mesovida do solo são a polícia sanitária da natureza, removendo e reciclando o que não presta mais para uma vida ativa e sadia. E, se nossas culturas são atacadas, alguma coisa deve estar fundamentalmente errada, porque não é em vão que os microrganismos consideram quando plantas estão "inaptas" para a vida. Toda vida múltipla e diversificada funciona a partir da matéria orgânica". - Ana Maria Primavesi.


É uma relação simbiótica arriscada e quando os elementos estão equilibrados, uma planta saudável consegue ser muito produtiva e estar nutrida, enquanto os seres presentes no solo fazem a ciclagem de nutrientes e proteção das raízes pelo interesse pelo pagamento de seiva. Se você curtiu esse assunto, procure por rizóbios e micélios no google para ver mais detalhes de parcerias de fungos e bactérias com as plantas.

A matéria orgânica não é alimento para a planta, mas para a biodiversidade do solo. Mantenha seu solo vivo e então, suas plantas saudáveis.

CADA PLANTA, UM ECOSSISTEMA:


"Considerava-se que as raízes servem somente para ancorar as plantas, impedindo que o vento as levasse, e para a absorção de água e nutrientes. Mas as raízes são parte de um ecossistema e excretam muitas substâncias no solo, especialmente seu "lixo metabólico". Assim como os animais defecam, também a planta se livra de substâncias inaproveitáveis em seu metabolismo. E ainda excretam substâncias tóxicas para defender seu espaço, os antibióticos, que impedem a invasão deste por raízes congêneres. Como todas essas substâncias são orgânicas, típicas para cada espécie e cada variedade vegetal, também cria uma vida típica, especializada que se nutre dessas substâncias. Assim, as raízes criam sua microflora e mesofauna especializada."


"Quanto menos matéria orgânica for devolvida ao solo, tanto mais especializada se tornará a vida e tanto mais rápido serão criadas pragas e pestes, especialmente porque as condições físicas do solo estão se degradando rapidamente e, com elas, o metabolismo das plantas".

Trechos do Livro: Manejo Ecológico do Solo - Ana Primavesi


LUGAR DE MATÉRIA ORGÂNICA É NO.... TOPO!


Pode-se dizer que a matéria orgânica, em qualquer forma que apareça, é alimento para a vida no solo. Os nutrientes que se liberam na sua decomposição são um brinde que a natureza nos dá. E, como a matéria orgânica deve alimentar a vida que nos é benéfica, ou seja, especialmente a aeróbia e a semiaeróbia, ela não pode ser enterrada.

A matéria em decomposição deve ficar na camada superficial do solo, onde ajuda a formar a bioestrutura do solo influenciando na formação de macroporos que permitem a entrada de ar e de água - ambos essenciais para a vida no solo e para as raízes das plantas. Enterrada, a vida que se assenta é outra (anaeróbia) e não há formação de grumos e macroporos.



A MONOCULTURA E A CRIAÇÃO DE PRAGAS

Até aqui você já deve ter entendido a importância da matéria orgânica para a prosperidade das plantas através da simbiose com a fauna edáfica, certo? Agora vamos analisar o contexto das plantações de monocultura..

Vastas porções de terra sem biodiversidade (mono, né?), com adubação química (sais solúveis), solo descoberto e excessivas colheitas. Temos aqui um exemplo completo de tudo que NÃO deve ser feito se você quiser cultivar plantas saudáveis e alimentos nutritivos! É o cenário do caos:

  1. A falta de biodiversidade de plantas também diminui a biodiversidades de seres abaixo do solo (microflora e mesofauna específicas) e acima (superpopulações do mesmo inseto).

  2. A adubação química NPK não tem a diversidade de micronutrientes que as plantas precisam para produzir carboidratos, substâncias de defesa, seus tecidos e seu metabolismo em geral, além de salinificarem o solo que dificulta o desenvolvimento de alguns seres e da própria raíz da planta*.

  3. Com solo descoberto - sem a camada de matéria orgânica que se se forma naturalmente em cultivos agroflorestais - a temperatura no solo aumenta e a vida edáfica se reduz porque estes são seres muito sensíveis à temperatura.

  4. O uso do mesmo solo para a mesma colheita sucessivamente, sem rotação e sem adubação diversificada esgota do solo os nutrientes que a planta já não conseguia captar com dificuldade.

* Já ouviu falar que precisa colocar pouco adubo químico no seu vaso de planta porque senão a planta "queima"? É esse o efeito!


O resultado? Colheitas sendo atacadas sucessivamente pelas mesmas pragas: fungos ou insetos que são especializados em comer aquela planta porque não existe biodiversidade de nutrientes para a planta formar sua defesa, de alimento para esses organismos porque a planta está fraca e de predadores naturais que poderiam fazer esse controle. Aí a polícia sanitária entra em ação para tentar renovar aquela plantação doente. E a reação é uma chuva de agrotóxicos para controlar aqueles seres super especializados e cada vez mais resistentes.

Em solos desgastados, a agricultura produz alimentos de valor nutricional cada vez menor, além de exigir cada vez mais adubos químicos e defensivos e, por isso, apresentam um baixo valor nutritivo, mas um teor elevado de resíduos tóxicos.


Acredito que seja através do entendimento de como os solos, as plantas e nós nos alimentamos que poderemos regenerar áreas degradadas e nos conectar de forma verdadeira com a natureza.


Gostaram do post? Comentem aqui embaixo e vamos conversar sobre esse incrível mundo das plantas!



Fontes: Fauna Edáfica em Ação, Micro, Meso e Macrofauna, Biocenose do Solo, Livro: Manejo Ecológico de Pragas de Doenças - Ana Maria Primavesi, Como as plantas produzem seu próprio alimento, A importância da microbiologia do solo na produtividade.

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